DIA 57 – Como retratar doenças mentais sem romantização #100diasdeprodutividade

Olá, como vão todos? Hoje quero conversar com vocês sobre um assunto bem interessante, sugerido pela @desamparadaoffline.

A pergunta dela é o seguinte:

Screenshot_2020-07-05 Tumblr

Até parece que ela estava lendo minha mente. Eu reuni bastante informação sobre o assunto, mas estava esperando um dia com bastante tempo para escrever; o que nunca veio e que provavelmente vai ficar para depois do desafio dos cem dias, então achei que essa era uma boa oportunidade.

Como não romantizar um problema mental? Bem, é uma pergunta bem cabeluda. Algumas pessoas vão te dizer que só de discutir o assunto em um enredo já seria romantização. Entretanto, minha opinião é o contrário, sou a favor de se falar sobre o assunto, porém com cautela.

Pesquisa.

A primeira coisa é manter os pés no chão. Quando mais correta a retratação da doença for, melhor será. Isso requer o mínimo de pesquisa para se saber quais são os sintomas e quais são as consequências, procurando relatos de como pessoas nesse tipo de doença específica age. É importante se ter todos os fatos, pois isso ajuda a tirar a romantização quanto falamos sobre isso de uma forma real e seria.

Consequências.

Como vivo repetindo, ações geram reações, que são as nossas consequências. Então, se um personagem desenvolveu algum tipo de doença você tem que ir com ela até o final ou até que o personagem se recupere de trauma.

Emoções.

Por ser um assunto pesado, alguns escritores podem tentar fugir do assunto. NÃO FACA ISSO! Por que você daria uma depressão pós-parto ou ansiedade para um personagem e desistiria no meio do caminho? Se não enfrentarmos essas emoções de frente, será muito difícil encontrar qualquer tipo de vulnerabilidade.

Você, como escritor, tem a obrigação de sentir o que seus personagens e leitores também sentirão. É o único jeito de fazer um bom trabalho, deixar todos sentirem o que lhes pertence.

Um exemplo disso é um bl que retrata um adolescente que foi abusado sexualmente na infância por um homem adulto. Quando cresce, ele vira um homofóbico. Durante a série, vemos o personagem devagar e lutando a cada passo do caminho, vencer seu trauma, se permitindo ser vulnerável o suficiente para enfrenta-lo e sair vitorioso. Sei disso porque já escrevi um personagem com depressão bem pesada e foi difícil, muito difícil continuar. Também escrevi sobre uma pessoa que foi abusada fisicamente e sexualmente e até hoje não consegui terminar. Então, tenha certeza do que você quer contar e tente começar com uma história curta. Se ler é difícil, imagina escrever que requer muitas revisões e edições?

Traumas.

Toda doença mental nasce de um trauma. Pode ser físico, como de soldados, mulheres gravidas, ou até de acidentes de carro; pode ser mental, um abuso sofrido durante a infância ou abandono parental, também na vida avulta ou até na terceira idade. Há também os de cunho sexual, social e econômico. Quanto maior o trauma, mais intenso será a doença. Pense nisso quando escrever.

Não amenize as coisas.

Sim, foi o que você leu. NUNCA AMENIZE O TRAUMA. Se for sexual, vá até o fim, se for causado por pais abusivos ou ausentes, vá até o fim. Escreva todos os detalhes e deixe o personagem sentir. Não dê a entender que não foi nada, que aquilo não afetou o personagem. Se o personagem for uma criança ele pode pensar que não foi nada, que não vai acontecer novamente ou que foi culpa dele, e quando cresce finalmente entende o que passou. Esse será um personagem traumatizado, assim, terá algum tipo de doença mental.

Vitima.

Pessoas que passam por traumas sempre acham que elas são as culpadas, sendo que a culpa é sempre do agressor. Pelo menos isso acontece com a grande maioria, principalmente se vir de alguém que elas confiam ou amam. Nem todos vão ser assim, mas mesmo os que entendem a verdade, saem com alguma sequela. Alguns se tornam rebeldes, lutando contra o ocorrido, também podendo se tornar em vingadores. Outras, se tornam “agradadores”, tentando agradar e obedecer a todos para não ter que passar por aquela situação novamente. Há quem passe a vida toda passivo diante do abuso e que o sofra repetidamente sem nunca reagir. Tudo vai depender da personalidade, situação ou ambiente em que esse personagem se encontra.

Escreva as coisas nuas e cruas.

Quando o trauma estiver acontecendo, não coloque no texto como a vítima ama a pessoa, não faça parecer algo bom, sensual ou consensual. Se for sexual, descreva o que acontece, mas nunca como se a pessoa estivesse gostando. Ou ela até pode gostar, porem assim que acabar vem a noção de que ela foi abusada ou traída. Não floreie o texto, não escreva sobre beijos; escreva a pessoa se sentindo ferida, triste, violada, derrotada. Pois, esse é o real sentido da palavra romantização: ver de forma romântica ou enfeitada algo que machuca, fere ou afeta alguém de forma negativa.

Uma mãe sai cedo de casa e deixar a criança sozinha ou com outra pessoa e nunca estar presente, machuca; um namorado te trair com sua melhor amiga e nem negar, machuca; um pai sair porta afora e nunca mais voltar, machuca; um soldado que lutou por seu pais e que volta paraplégico, também machuca. A chave aqui é escrever com consciência e empatia. É você entrar na pele do personagem e realmente descrever o que ele sente. Ninguém gosta de ser abusado, usado ou traído e mesmo que queiramos nos enganar, sabemos que aquilo não é certo. Nesses casos, como escritores, temos que nos permitir experimentar o trauma do personagem, sentir a mudança que acontece dentro deles e navegar com eles durante a recuperação, ou a não-recuperação deles. Atenção e cuidado é o mais importante acima de tudo.


Obrigada por ler e me deixe um comentário. Você tem opiniões diferentes sobre o assunto? Eu amaria lê-las.

Espero ter respondido suas duvidas @desamparadaoffline.

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